domingo, 30 de setembro de 2012

O corvo e a raposa

(tradução Bocage)

É fama que estava o corvo
Sobre uma árvore pousado
E que no sôfrego bico
Tinha um queijo atravessado.

Pelo faro àquele sítio
Veio a raposa matreira
A qual, pouco mais ou menos,
Lhe falou desta maneira:

"Bons dias, meu lindo corvo;
É glória desta espessura;
És outra fénix, se acaso
Tens a voz como a figura!

A tais palavras o corvo
Com louca estranha afouteza,
Por mostrar que é bom solfista
Abre o bico, e solta a presa.

Lança-lhe a mestra o gadanho,
E diz: "Meu amigo, aprende
Como vive o lisonjeiro
À custa de quem o atende.

Esta lição vale um queijo,
Tem destas para teu uso."
Rosna então consigo o corvo,
Envergonhado e confuso:

"Velhaca! Deixou-me em branco,
Fui tolo em fiar-me dela;
Mas este logro me livra
De cair noutra esparrela."

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