quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Estou Partindo - GIBRAN KHALIL GIBRAN

"Fica Se te interessa Através dos jardins, através dos pomares Estou partindo Meu dia É sombrio sem Sua face Eis porquê me dirijo agora à chama brilhante no céu Minha alma corre à frente e diz: 'O corpo é lento demais. Estou partindo.' Maçãs exalam no pomar de minha alma Seu perfume me invade me transporta para a colheita das maçãs Ventos súbitos não me desviarão Oh montanha de ferro, cada um de meus passos dirige-se ao Amado Minha cabeça rompeu-se com a dor de Sua perda Em busca de uma nova vida, cabeça erguida Estou partindo Sou fogo vivo mas pareço betume Quero ser óleo límpido em Tua mão para depor este parto Pareço imóvel como a montanha, mas sigo pouco a pouco em direção à pequena fresta Estou chegando... Tocaste a órbita do coração celeste Agora fica aqui Pudeste ver a lua nova Agora fica Sofreste em excesso por tua ignorância Carregaste teus trapos para um lado e para o outro Agora fica aqui Teu tempo acabou Escutaste tudo que se pode dizer sobre a beleza desse Amante Fica aqui agora Juraste em teu coração que havia leite nesses Seios Agora que provaste desse leite... fica."

Sama - Rumi

Viemos girando do nada, espalhando estrelas como pó. As estrelas puseram-se em círculo e nós no centro dançamos com elas. Como a pedra do moinho, em torno de Deus gira a roda do céu. Segura um raio dessa roda e terás a mão decepada. Girando e girando essa roda dissolve todo e qualquer apego. Não estivesse apaixonada, ela mesma gritaria - basta! Até quando há de seguir esse giro? Cada átomo gira desnorteado, mendigos circulam entre as mesas, cães rondam um pedaço de carne, o amante gira em torno do seu próprio coração. Envergonhado ante tanta beleza giro ao redor da minha vergonha. Ouve a música do samá. Vem unir-te ao som dos tambores! Aqui celebramos: somos todos Al-Hallaj dizendo: “Eu sou a Verdade!” Em êxtase estamos. Embriagados sim, mas de um vinho que não se colhe na videira; O que quer que pensem de nós em nada parecerá com o que somos. Giramos e giramos em êxtase. Esta é a noite do sama Há luz agora. - Luz ! Luz! Eis o amor verdadeiro que diz a mente: adeus. Este é o dia do adeus. - Adeus ! Adeus ! Todo coração que arde nesta noite é amigo da música. Ardendo por teus lábios meu coração transborda de minha boca. Silêncio! És feito de pensamento, afeto e paixão. O que resta é nada além de carne e ossos. Por que nos falam de templos de oração, de atos piedosos? Somos o caçador e a caça, Outono e primavera, Noite e dia, O Visível e o Invisível. Somos o tesouro do espírito. Somos a alma do mundo, livres do peso que vergasta o corpo. Prisioneiros não somos do tempo nem do espaço nem mesmo da terra que pisamos. No amor fomos gerados. No amor nascemos

Rubayiat III - Omar Kahhyyan

No céu, a mão esquerda da alvorada; eu sonho. Na taberna, uma voz escuto na algazarra - Despertai, meus pequenos, e enchei bem o copo antes que seque o vinho da vida em sua jarra. Ah! Enche o copo! De que serve repetir que o tempo sob os nossos pés já vai fugindo? O amanhã não nasceu e o ontem já morreu, porque me hei-de importar, se o dia de hoje é lindo? E ao côncavo invertido que se chama o céu, sob o qual rastejaram o vivo e o que morreu, não ergas tuas mãos, pedinte. Ele é impotente no seu girar, tal qual o somos tu ou eu. O dedo que se move escreve, e, tendo escrito, se vai. E toda a argúcia e piedade, entretanto, não o trarão de volta a mudar meia linha, nem as palavras podes apagar com o pranto. E se o vinho que bebes, o lábio que oprimes findam nesse nada que a tudo dá sumiço, imagina, então, que és; não podes ser senão o que hás-de ser - nada! Não serás menos que isso. Façamos o que é do que inda há por fazer antes que também nós ao pó vamos enfim. O pó vai para o pó, sob o pó vai jazer sem vinho, sem canções e sem cantor... sem fim. É tudo um tabuleiro de noites e dias; os homens são peças, e o fado temerário com elas joga, e move, e toma, e dá o mate, e uma a uma as recolhe, e vai guardar no armário.

Na floresta - Khalil Gibran

Na floresta não existe nem rebanho nem pastor
Quando o inverno caminha
Segue seu distinto curso como faz a primavera
Os homens nasceram escravos daquele que repudia a submissão
Se ele um dia se levanta e lhes indica o caminho
Com ele caminharão
Dá-me a flauta e canta
O canto é o pasto das mentes
E o lamento da flauta perdura mais que rebanho e pastor.

Na floresta não existe ignorante ou sábio.
Quando os ramos se agitama ninguém reverenciam.
O saber humano é ilusório
como a serração dos campos que se esvaiquando o sol se levanta no horizonte.
Dá-me a flauta e canta,
O canto é o melhor saber
E o lamento da flauta sobrevive ao cintilar das estrelas.

Na floresta só existe lembrança dos amorosos.
Os que dominaram o mundo e oprimiram e conquistaram
os seus nomes são como letras dos nomes dos criminosos.
Conquistador entre nós é aquele que sabe amar.
Dá-me a flauta e canta
E esquece a injustiça do opressor.
Pois o lírio é uma taça para o orvalho
E não para o sangue.

Na floresta não há crítico nem censor
Se as gazelas se perturbam quando avistam o companheiro
a águia não diz: que estranho.
Sábio entre nós é aquele que julga estranho apenas o que é estranho.
Ah, dá-me a flauta e canta
O canto é a melhor loucura
e o lamento da flauta sobrevive aos ponderados e aos racionais.

Na floresta não existem homens livres ou escravos.
Todas as glórias são vãs como borbulhas na água.
Quando a amendoeira lança suas flores sobre o espinheiro não diz:
“Ele é desprezível e eu sou um grande Senhor.”
Dá-me a flauta e canta
que o canto é glória autentica
E o lamento da flauta sobrevive
Ao nobre e ao vil.

Na floresta não existe fortaleza ou fragilidade
Quando o leão ruge não dizem:“Ele é temível.”
A vontade humana é apenas
uma sombra que vagueia no espaço do pensamento
e o direito dos homens fenece
como folhas de outono.
Dá-me a flauta e canta
O canto é a força do espírito
E o lamento da flauta sobrevive ao apagamento dos sóis.

Na floresta não há morte nem apuros.
A alegria não morre quando se vai a primavera.
O pavor da morte é uma quimera que se insinua no coração,
pois quem vive uma primavera é como se houvesse vivido séculos.
Dá-me a flauta e canta
O canto é o segredo da vida eterna
E o lamento da flauta permanecerá

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Mundos Infinitos - Rumi


A cada instante a voz do amor nos circunda 
e partimos em direção ao céu profundo
Por que deter-se a olhar ao redor?
Já estivemos antes por esses espaços e até os anjos os reconhecem
Retornemos ao mestre, que é lá nosso lugar

Estamos acima das esferas celestes, somos superiores aos próprios anjos
Além da dualidade nossa meta é a glória suprema
Quão distante está o mundo terreno do reino da pura substância?
Por que descemos tanto?

Apanhemos nossas coisas e subamos mais uma vez
Sorte não nos faltará ao entregarmos de novo nossas almas
Nossa caravana tem por guia Mustafá, a glória do mundo
Ao contemplar sua face a lua partiu-se em dois pedaços

Não pôde suportar tanta beleza e fez-se feliz mendicante frente àquela riqueza
A doçura que o vento nos traz é o perfume de seus cabelos
A face que traz consigo a luz do dia reflete o brilho de seus pensamentos
Olha bem dentro de teu coração e vê a lua que se despedaça

Por que teus olhos ainda fogem dessa visão maravilhosa?
O homem emerge do oceano da alma como os pássaros do mar
Como há de ser terra seca o lugar do descanso final 

de uma ave nascida nesse mar?Somos pérolas desse oceano. A ele pertencemos. Cada um de nós.

Seguimos o movimento das ondas que se arrastam até a terra 
e então retornam ao mar
E eis que surge a última onda e arremessa o navio do corpo à terra
E quando essa onda regressa naufraga a alma em seu oceano
E este é o momento da união